Não existem crimes perfeitos

23 12 2008

“A impressão digital fica lá sempre. Denunciando. Perseguindo. Capturando. Castigando. Castigando o quê? Tudo. Nada. O que nos dá força para viver. O que nos assassina as esperanças derradeiras, abandonando-nos na monotonia das horas, das semanas, dos meses. Na alienação de nós próprios. No vazio que nos preenche ao final do dia, quando damos por nós. Sozinhos. Abandonados. Escorraçados de algo que só nos foi autorizado sentir por um momento… e que depois nos foi arrancado, morto aniquilado. Daquilo que ainda parece que sentimos na boca. O seu sabor. A sua essência. Mas nas mãos esse nada que nos consome. Isso. Isto. O Tempo. O Amor. Tudo. Não existem crimes perfeitos. Já vos tinha dito? Não existem. Juro. Mas ainda nos tentam enganar. E conseguem. É vê-los amontoados nas montras de qualquer papelaria, de qualquer supermercado, de qualquer biblioteca. Livros, romances para ser exacta. São lindos! E iludem-nos tal como se pretende. Dão-nos esperança. Dão-nos sonhos. Fazem-nos sonhar, acordados ou a dormir, conscientes ou inconscientes, fazem-nos voar num mundo perfeito, onde a felicidade é possível, onde o amor é real e acontece. Onde não há limites que nos prendam, nem sonhos que nunca se alcancem. Aí. Nesse mundo. Nesse universo escrito, lido, imaginado… Nesse universo que transborda das páginas para a calçada, para a rua, para a cidade… envolvendo-nos na decepcionante nuvem de perfeição… Que desvanece.
Podia contar inúmeros casos. Sonhos que comandaram a vida de um alguém, que ansiava pela concretização desse seu sonho. Mas que na fase final da sua vida se apercebeu que talvez não fosse bem assim. Talvez os sonhos só acontecem nos livros e nos filmes, onde os finais felizes nos enganam, prometendo-nos algo reservado só para eles.Mas também há o eterno caso da rapariga tímida lá do sítio, reservada, estudiosa. Afastada de tudo e de todos. Mas que no final acaba sempre com o Top-Model masculino de serviço, que a faz encontrar a felicidade.Perdoem-me que nunca tenha testemunhado tal coisa. Mas testemunho outras coisas.Testemunho mães perderem filhos inexplicavelmente. Sem culpa. Inocentes. Testemunho casos de crianças que não sabiam o que era sobremesa por nunca terem comido uma refeição normal. Completa. Testemunho o vazio de pessoas que eu conheci, e que agora são apenas a concha daquilo que foram. Por dentro vazias. Amargamente vazias. Por isso não me venham com Romances, com Livros, com Filmes, com Finais Felizes. Não me venham com Políticas, reformas, Deputados, Assembleias, Decretos. Devolvam-me o que é nosso. Devolvam-me a nossa Humanidade perdida. Devolvam-me as nossas almas, impuras e sujas sim. Mas humanas. Quentes. Com sentimentos. Não me tragam mais branco. Não me reduzam mais espaço. Devolvam-me o castanho sujo da terra, as nódoas na nossa blusa de Domingo, os nossos corpos imperfeitos mas cheios, repletos, a transbordar num mar de alegrias, tristezas, mágoas, pequenas felicidadesDevolvam-me o Meu sonho. Não o Sonho que se compra com o bilhete do cinema, ou com o preço de um livro. Devolvam-me os sonhos que tive. Devolvam-me a inocência de quem ignora.

Devolvam-me tudo,já!

Não existem crimes perfeitos. Eu não quero crimes perfeitos.”

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